O que fez sete dias com sete noutes D. Inigo só e encerrado na capella? Se alguem o soube foi a cova fria. Contavam, depois, que um monge na ultima noute vira a pedra do tumulo erguida sem lhe tocarem, e um corpo crescer da sepultura e a mão do morto apertar a mão do vivo. Illusões! Quem vae nunca mais torna. O que não foi fabula, porque todos o presencearam, foi ao oitavo dia rebentar com o primeiro raio de luz uma rozeira do centro da cova, tão viçosa e robusta como se existisse ha muitos annos. Que frescas rosas e que lindos botões nos ramos! Mas se queriam apanhal-os por devoção, murchavam nos dedos; se tentavam cortar uma pelo pé, o sangue corria da haste como se corresse de veia aberta. Em cada ramo abriam sete rosas brancas e sete rosas vermelhas. E que outros tantos dias se contavam tambem desde que o corpo do valente cavalleiro descera á sepultura trespassado de sete feridas.

Nunca mais se soube, ou se fallou de D. Inigo. Dizia-se que sete annos com mais cinco vagueára como peregrino, pelos desertos, que Deus pisou, comendo das ervas do monte, bebendo da agua das nascentes, dormindo ás inclemencias do tempo. Que vida penitente a d'aquelle Santo! Vozes do mundo!{26} O Senhor, que lê nos corações, ha muito que tinha desviado os olhos d'elle. Com ser christão nascido nunca mais ajoelhára á cruz, ou se encommendára á Virgem. Quasi ao cabo do longo desterro anouteceu-lhe no deserto da Tentação ao atravessar pela terceira vez a Palestina. Valha-nos Maria Santissima!... De repente as areias inflammaram-se em um mar de fogo; o ceu cobriu-se de trevas; e nas pontas recortadas das altas rochas dançaram, crusando-se, milhares de luzeiros. Ouviu-se então na vasta solidão do ermo um brado immenso. D. Inigo respondeu, e o pacto, que ali firmou, foi tão negro, que a lua tornou-se côr de sangue e sumiu-se, que as estrellas esconderam tremulas a sua luz. O christão acabáva de vender ali a alma ao inferno pela vingança. Desde aquella hora seguiu-o sempre por toda a parte, como a sombra segue o corpo, a imagem do irmão assassinado. Ajoelhára ao poder de Satanaz, elle que não se prostrára diante da cruz, e rasgando as veias afirmára o juramento. Quando se ergueu soou o cantar do gallo por tres vezes no espaço, repetido pelos echos, e risadas tremendas, levantando-se das aguas immoveis do Mar Morto, applaudiram a victoria do espirito do mal. O reprobo escarneceu do passado. Uma blasphemia atroz saltou-lhe da bocca. Mas elle que se ria de Deus e do inferno, estremeceu sentindo fugir-lhe a terra debaixo dos pés, como horrorisada do peso do seu crime. Aos primeiros{27} passos o clarão dos relampagos cegou-lhe a vista. O temporal rebentava ao mesmo tempo no mar aonde as ondas se empolaram como serras, no ceu aonde os trovões estalavam uns apoz outros; na terra, que se abria em voragens, e no deserto, aonde o furacão, bramindo, cavava abysmos, e alteava montanhas, revolvendo em vortice as areias. Cedros antigos, como os do Libano, desabavam de pancada. As feras, timidas que nem cordeiros, acoutavam-se submissas nos povoados. Os homens elevavam suas orações a Deus pedindo-lhe piedade. Quando tudo se fazia humilde e pequeno para a supplica, porque riria só o orgulho do culpado? D'ali em diante não passou uma hora sem elle se despenhar mais e mais fundo no precipicio. Raiava a manhã um dia e curvado sobre a corrente do Jordão, debruçava o cantaro e enchia-o. As ramas das arvores enfezadas torciam-se em toldo raro sobre a ribeira. A duas passadas de distancia caíra um velho desfallecido de sede e de fadiga. Bastava uma gota d'aquella agua para lhe restituir a vida. D. Inigo negou-lh'a entornando-lhe de proposito o cantaro diante dos olhos para lhe exacerbar o tormento, diante dos olhos que estavam tragando de longe a agua, que o maldito derramava zombando da sua agonia, e dizendo-lhe por mofa: «chama pelo teu Deus e pede-lhe uma nascente ao pé de ti!» O Senhor não accudiu com prodigios ao seu servo. Quiz que expirasse vencedor do{28} inferno. Mas, desde aquelle crime, a sêde intensa ateiada nas entranhas do reprobo, nunca mais se aplacou. Os rios e as fontes convertiam a fresquidão em fogo para o abrazar. A gota de agua negada no deserto pesára na balança do Senhor largos seculos de culpas.

Cumpridos doze annos, D. Inigo voltou, sem se saber como, á terra em que nascera. Disseram que um cavallo da côr da noute, com os olhos todos chammas, o trouxera em breves instantes da Judeia a Portugal. A cauda varria o pó, a respiração era toda fogo, e as crinas ondeavam ao vento. Diante d'elle as mais altas montanhas encolhiam-se e tornavam-se outeiros; o mar e os abysmos solidificados aplanavam-se; e no perpassar do galope infernal os carvalhos inclinados tremiam e beijavam o chão, flexiveis como juncos. Cavallo e cavalleiro não corriam, voavam! Debaixo da ferradura magica as aguas tomavam a dureza do diamante: a terra oscillava, e mil faiscas, saltando da cratera dos vulcões, vinham coroar o rei do fogo. Ao romper da aurora o corsel retrahiu-se, e estacou. Apontava o dia no topo de uma cruz de pedra. Não passou d'ali. Á medida que ia aclarando a manhã adelgaçavam-se-lhe as formas e do primeiro raio de sol dissolveu-se desfeito em fumo.

Quando acabou de desapparecer tangia um sino. D. Inigo olhou e conheceu o sitio. Estava junto da egreja aonde fôra sepultado seu irmão. Ao primeiro{29} passo que deu, descerrou-se o portal por si mesmo; ao segundo illuminou-se a capella repentinamente; ao terceiro as rosas vermelhas cairam seccas e as brancas floriram juntas. Um cantico suave dentro levantava o Ave maris stella. Estava aplacada a vingança do morto. A fé, porem, debalde chamava ali por Inigo; elle não a ouvia. A voz do ceu em vão lhe offerecia o perdão; elle, surdo, não escutava a palavra de misericordia! Orava n'aquelle momento a Deus, muito longe, um santo hermita pelo maior peccador. Arrebatado em espirito, viu um homem cuspindo por odio na cruz á porta de uma egreja. O anjo Custodio, ajoelhado no cruzeiro, banhava de lagrimas as vestes luminosas; mas o desacato gelou-lhe o pranto, e, cobrindo o rosto com as azas, subiu na aragem até se perder nos raios dourados do sol nascente.

«A tua clemencia, Senhor, é infinita! exclamou o justo. Haverá perdão para o que renega o teu Santo nome?»

N'este ponto a visão sumiu-se; as portas da ermida fecharam-se com estrondo; e uma voz, semelhante á da tempestade, bramindo nas selvas, repetiu ao longe: memento, homo, quia pulvis es!{30}

{31}

[II
Não ha gosto sem pesar]

N'aquelle tempo, em terras de alem Douro, que rico homem era mais poderoso e rico do que D. Ordonho, conde? Estendendo a vista dos eirados do castello por valles, montes e campos, sabia que tudo era seu. A um aceno trinta cavalleiros mettiam o pé no estribo, e centos de homens de armas e peões seguiam o seu pendão. Descendia da grande raça dos primeiros lidadores das Asturias, raça de bronze nos odios, e de ferro nas vinganças. A edade gasta os mais fortes, e açor velho não se remonta ás aguias. Quando na carreira o vento lhe sacudia as madeixas brancas, D. Ordonho sentia que os{32} annos não haviam passado em vão. Só a neta, a formosa Auzenda, unico amor da sua vida, podia distrahil-o das horas de tristeza. Mais do que filha, porque duas vezes era o sangue da sua alma, um sorriso d'ella quebrava-lhe a vontade, e uma lagrima só d'aquelles olhos lindos, transformava em cordeiro o leão embravecido.

Os atalayas vigiam dos altos miradouros da torre de menagem. Os homens de armas crusam-se nos eirados. Espreitam se rompe ao longe uma lustrosa cavalgada, que se espera?