—Corre! Que mais corre o destino! Ao que ha de ser ninguem escapa!{149}
[VIII]
Os sinos do presbyterio repicam depois da missa. O povo acotovela-se á saida do estreito portal, e mais de um moço airoso, de rosto bronzeado, distrahe a vista furtiva e faz corar de jubilo a donzella, cujos olhos cheios de reticencias recordam os juramentos da vespera. O ruido dos pés, o borburinho e os alaridos das creanças, saltando pelo adro, animam de ar festivo a scena popular. Em quanto o Reitor, curvo e triste, se encaminha de vagar para a sua morada, estendendo a benção pelos aldeãos,{150} Silvana, sempre pallida, ampara no braço delicado o corpo de Aldonça. Os villãos desbarretam-se diante d'ellas, como diante do pastor; as mulheres acodem a saudal-as; e os rapazes, suspendendo as travessuras, tomam-as por intercessoras de suas petições. Encostado a uma oliveira antiga, Tello, de braços crusados, e com o arco a tiracollo, não desprega a vista namorada da neta de Garcia.
Mas antes das duas trilharem o sitio onde ella as está esperando, um homem de estatura elevada, semblante jovial, e gestos impetuosos, apressando o passo, adianta-se, e chega primeiro. É simples o seu trajo. Guarda-coz de ipre verde desenha o corpo robusto, e a monteira do mesmo estofo, sem plumas, assenta com desgarre fragueiro sobre os cabellos pretos, cujos anneis se debruçam sobre o cabeção da golla. Era de villão o vestido, mas o garbo e o porte inculcavam condição mais nobre. Nas pupillas inquietas, e por vezes desvairadas, retrata-se a indole ardente, prompta na ira, facil nos arrebatamentos.
As sobrancelhas, densas e arqueadas, a nuvem que tolda a espaços a serenidade da phisionomia, a par da tristeza, que lhe sobe em ondas rapidas ao semblante, denunciando saudades intimas e incuraveis, avivam as feições de um caracter afeito a dominar, de um coração ferido de golpe irreparavel, de uma mão que no combate das paixões{151} nem sempre ha de conservar-se lucida, resultado de passados soffrimentos.
Afagando com a mão direita as compridas barbas, e concertando com a esquerda o cinto, de que pende a adaga e uma trompa, este homem, que não póde contar ainda quarenta annos, e que entrára na egreja sem nenhum dos fieis se lembrar de o ter visto nunca, começou á saida a fallar com uns e com outros, fazendo perguntas aos mais velhos. Rompendo depois por entre o povo veiu collocar-se no sitio, aonde o descobrimos diante de Aldonça e Silvana, tão proximo de Tello que este não perdeu palavra do que disse. Sem saber porque, o besteiro, de ordinario cioso e assomado, em logar de se affrontar, estimou quasi a ousadia do monteiro. Parecia que um presentimento occulto lhe insinuava, que se decidia n'este momento a sua sorte. Era tão grande n'elle a tranquillidade de animo, como se a noiva adorada estivesse debaixo da protecção d'aquelle que duas vezes chamára pae. A velha Aldonça, apenas divisara o hospede, exclamou como rejuvenescida de repente:
—Filha! Não t'o affirmei? A aguia real saiu do ninho. A hora vem perto. Ouve o que te disser, obedece ao que te mandar, succeda o que succeder. Muita fé em Deus e na justiça de Elrei D. Pedro.
—Não é a fé que me falta, redarguiu melancholica{152} a donzella, é a esperança, mãe!... Elrei está longe e tão alto, que não podem vencer de certo metade do caminho as queixas da orphã.
—Quem sabe, donzella? atalhou o monteiro, adiantando-se, e admirando a formosura de Silvana. Pegando-lhe na mão, ajuntou:
—El-rei D. Pedro, filha, vê e ouve de longe. Conta-me tuas magoas.