Fallando assim, o tom da voz era brando. Tello, que o contemplava, sentiu renascer a esperança, e insensivelmente socegou do maior cuidado. Ora pallida, ora córada, a neta de Garcia narrava no emtanto a morte dolorosa do avô, as lastimas da sua infancia, e os amores infames que a perseguiam. As palavras pintavam a sua alma. Mais compadecida, do que vingativa, procurava atenuar as crueldades do senhor. Quando terminou, o desconhecido, sorrindo-se, e soltando-lhe a mão, disse:

—Descansai! Está perto El-rei D. Pedro. É como se vos ouvisse. Mandai a Sueiro Lopes a camisa da mortalha, não a pediu de balde! Se o cavalleiro fôr desleal, ou se vos quizer tirar por força, enviai-me este signal. Deus e El-rei serão comvosco!

Ao mesmo tempo entregou-lhe a trompa de prata e virando-se para Tello, accrescentava:

—É o vosso noivo?.. Merece-vos? Escolhestes bem?!... Não córeis, Silvana! Se o besteiro fôr o que mostra em pouco ha de fallar-se d'elle em Miranda.{153} Adeus! Não vos esqueça!... Ao primeiro perigo, um recado e o signal. O mais fica para mim.

Dito isto o monteiro sumiu-se por entre as arvores, e Tello estava aos pés da noiva, que Aldonça animava, annunciando-lhe proximo o termo de seus pezares.{154}

{155}

[IX]

Quando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do castello de Algoço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes; alma negra do senhor, aonde alcançára com o braço deixára sempre vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia, o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) não pôde conter o sorriso, rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas á porta despediram-o asperamente, respondendo{156} que Sua Mercê repousava, e que ninguem o despertaria para dar audiencia a um villão. A principio Tello pôde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercação irritou-o, e levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente á porta. Inteirado do motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:

—A que vens aqui?

—Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu elle friamente.