O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que não soube vencer, sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida. Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo, replicou:

—Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha mortalha. Palavra de cavalleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de faltar. As camisas?...

—Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o panno.

Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro tremia. Sobre o peito, em lettras côr de sangue, viu as iniciaes de seu nome e pondo{157} o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.

—Bem! exclamou. Silvana é tua se a achares. Quanto á mortalha.... Veremos esta noite quem a veste!

Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho da choupana de Aldonça. Um presentimento vago advertia-o de perigo incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a bôa nova, que levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado. Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores gemidos lugubres. No céu apagavam-se as estrellas umas apóz outras debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle, o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos, deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando chegou á choupana, achou a casa êrma e a porta arrombada, e acabou de crer que os pressagios não mentem. Bastava olhar para dentro para adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar{158} as ideias. O golpe inopinado tinha-lhe quebrádo as forças. Nem o animo, nem a razão se prestavam a ajudal-o.

Fôra rapto? Fôra vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia! Saltaram-lhe então as lagrimas, e a dôr foi tão penetrante, que a não se encostar caíra desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes, e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do Castello, e áquella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para ella eram as portas do sepulchro. É tua se a achares! dissera o roubador. A quem iria Tello pedir justiça? Luctando com a agonia sentiu que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava á donzella senão a morte depois da infamia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou atribulado: «Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não embainheis a espada da justiça!»

No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no hombro. Olhou. Viu Aldonça. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco de uma arvore, disse-lhe rapidamente:

—Monta!

O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha ajuntou:{159}