—O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva. Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na villa de Miranda. Busca os Paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és, dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro d'esta manhã. Dá-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão cumprido o seu fado.

O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu direito á villa.{160}

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[X]

Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os relampagos fuzilam sobre as eminencias.

Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a margem do{162} rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro, defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde: busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.

Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello, encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:

—Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes, nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo{163} o rico-homem por ella ter nascido no berço de um villão!

Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:

—Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas filhas!