O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.

—Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de{164} nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!

Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.

O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes. A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:

—É ali!

—Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.

Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.

—Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.

Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro subiu. No topo da escada{165} de caracol, a scena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome Justiceiro se perdoasse aquelle crime.

Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo, estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes, atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.