—Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as portas chapeadas d'este castello ainda são{166} mais fortes. Em esta areia, que está por instantes, cahindo toda...

Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.

—Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!

O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:

—Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae? Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!

—Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O matador de tres mulheres levanta-se{167} contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor, prendei-m'o em quanto os meus não chegam!

A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de el-rei.

—Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.

—Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella, verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.

—A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.