Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:{168}

—Pedes perdão a Deus e ao teu rei?

—Não!

O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras do cavalleiro.{169}

[XI]

A tropeada de muitos cavallos, soando a par do alarido e vozes do castello, annunciou á aldeia alvoroçada a vinda do monarcha. Tello Vasques apparecia á porta quando Sueiro Lopes expirava.

—Besteiro! Por teus olhos vês que me não chamam em vão o Justiceiro. Corrias como noivo e como esposo... apesar d'isso cheguei primeiro! A justiça do rei ainda andou mais veloz do que o amor!

Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha a Sueiro na capella, e os noivos recebiam a benção nupcial, tendo el-rei D. Pedro por seu padrinho.{170}

Fallou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que não esqueceu nunca foi a justiça que fizera em Algoço a severidade do monarcha.

O castello devolveu-se á corôa, e parece que fôra doado depois ao primogenito de Tello e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi verdade ou fabula, não sei. El-rei D. Pedro era tão capaz de fazer cavalleiro um villão, como de justiçar como villão um cavalleiro.{171}