—Sessenta mil homens muita gente é para casa tão pequena, mas, querendo Deus, el-rei, meu amo e meu senhor, sempre hade achar aonde possa hospedal-a. Mais pequena era Aljubarrota e lá couberam os que D. João de Castella trouxe. Vossa excellencia póde responder isto ao seu governo.
E, levantando-se para despedir o embaixador, accrescentou:
—Bem sabe vossa excellencia que póde tanto cada um em sua casa, que mesmo depois de morto são precisos quatro homens para o tirarem!
O embaixador saíu jurando por Dios y la Virgen Santisima e o marquez preparou-se para a guerra. O caso é como dizia o nosso Zeferino na Sobrinha do Marquez, que Sebastião José de Carvalho foi um grande ministro e que fez muito pela nação.{174} Hoje ha menos quem responda assim á lettra ás ameaças dos estrangeiros. Berra-se muito, dorme-se a somno solto ao som dos hymnos patrioticos, e depois salva o castello de madrugada e está salva a patria!
O marquez de Pombal presava as artes e protegia e animava as classes medias. Esse pouco, que o reino progrediu deveu-se a elle. Se a industria nunca acabou de sair da infancia a culpa quasi toda foi dos maus governos que succederam ao seu, e tambem do povo que não quiz trabalhar deveras... Mas vamos aos touros reaes. D'esses é que o ministro não gostava nada. Queria-os ao arado e não á farpa, e parecia-lhe melhor, que os toureadores, sendo fidalgos, servissem o Estado com a penna ou com a espada, e, sendo mechanicos, que lavrassem, tecessem e ganhassem honradamente a vida, enriquecendo-se a si e á nação.
Mas el-rei D. José, cedendo em tudo ao marquez, quanto aos toiros não admittia reflexões. N'isto era rei a valer e Bragança legitimo. Os fidalgos sabiam-o e por isso disfructavam dôces prazeres—a satisfação do gosto nacional, e a contradicção da vontade do ministro. Desatendel-a sem perigo e pela mão do soberano era para elles um deleite e um triumpho.
N'estas funcções não vigorava a severidade das ultimas pragmaticas. Outro motivo de jubilo. Quem{175} queria podia arruinar-se em luxuosos vestidos, enfeites e toucados. As bordaduras e os recamos de oiro, os veludos e sedas de fóra, talhados á franceza, resplandeciam constellados de perolas e diamantes. Por cima dos mais ricos trajos e das mais vistosas côres desenrolavam-se os anneis ondeados das empoadas cabelleiras. As damas ostentavam as graças de seus donaires e tufados, e emoldurando o bello oval dos rostos nos penteados caprichosos sorriam-se para os gentis campeadores, e seus olhos cheios de luz e de promessas estimulavam até os timidos.
Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as musicas. Chegou el-rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e vê-se ondear um oceano de cabeças e de plumas. Na praça resoam brava alegria as trombetas, as charamellas e os timbales. Apparecem os cavalleiros, fidalgos distinctos todos, com o conto das lanças nos estribos e os brazões bordados no veludo das gualdrapas dos cavallos. As plumas dos chapeus debruçam-se em matisados cocares, e as espadas em bainhas lavradas pendem de soberbos talins. Os capinhas e forcados vestem com garbo á castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o enthusiasmo.
O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado á moda da{176} côrte de Luiz XV, de veludo preto, fazia realçar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraeta alvissima. O conde não excedia a estatura ordinaria, mas esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais, porém animadas de grande expressão, e o fulgor das pupillas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão recobrado, que se tornava irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu pae, do melhor cavalleiro de Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o corsel, como que ajustados em uma só peça, realisavam a imagem do centauro antigo.
A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corsel, arrancou prolongados e repetidos applausos. Na terceira volta, obrigando o cavallo quasi a ajoelhar-se diante de um camarote, fez que uma dama escondesse torvada no lenço as rosas vivissimas do rosto, que de certo descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos rapidos como o faiscar do relampago podesse alguem adivinhar o que só dois sabiam.