El-rei, quando o mancebo o comprimentou pela ultima vez, sorriu-se, e disse voltando-se:{177}

—Por que virá o conde quasi de luto á festa?

Principiou o combate.

Não é proposito nosso descrevermos uma corrida de touros. Todos teem assistido a ellas e sabem de memoria o que o espectaculo offerece de notavel. Diremos só que a raça dos bois era apurada, e que os touros se corriam desembolados, á hespanhola. Nada diminuia, portanto, as probabilidades do perigo e a poesia da lucta.

Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um touro preto investiu com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indicio de grande ligeireza, e movimentos rapidos e bruscos, signal de força prodigiosa. Apenas tocára o centro da praça, estacou como deslumbrado, sacudiu a fronte e escarvando a terra impaciente, soltou um mugido feroz no meio do silencio, que succedera ás palmas e gritos dos espectadores. Dentro em pouco os capinhas, salvando a pulos as trincheiras, fugiam á velocidade espantosa do animal, e dois, ou tres cavallos expirantes denunciavam a sua furia.

Nenhum dos cavalleiros se atreveu a sair contra elle. Fez-se uma pausa. O touro pisava a arena ameaçador e parecia desafiar em vão um contendor. De repente viu-se o conde dos Arcos firme na sella provocar o impeto da féra e a hastea flexivel do rojão{178} ranger e estalar, embebendo o ferro no pescoço musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma acclamação immensa do amphiteatro inteiro, e as vozes triumphaes das trombetas e charamellas encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote, diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavallo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair uma rosa, e o conde, curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flor do chão sem afrouxar a carreira, levou-a aos labios, e metteu-a no peito. Investindo depois com o touro, tornado immovel com a raiva concentrada, rodeou-o estreitando em volta d'elle os circulos até chegar quasi a pôr-lhe a mão na anca.

O mancebo despresava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arripiar a testa do touro com a ponta da lança. Precipitou-se então o animal com furia cega e irresistivel. O cavallo baqueou trespassado e o cavalleiro, ferido na perna, não pôde levantar-se. Voltando sobre elle o boi enraivecido arremessou-o aos ares, esperou-lhe a quéda nas armas, e não se arredou senão quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadaver.

Este doloroso lance occorreu com a velocidade do raio. Estava ja consummada a tragedia e não havia expirado ainda o echo dos ultimos aplausos.{179}

De repente um silencio em que se conglobavam milhares de agonias, emudeceu o circo. Rei, vassallos e damas, meio corpo fóra dos camarotes, fitavam a praça sem respirar e erguiam logo depois a vista ao ceu como para seguir a alma, que para lá voava envolta em sangue.

Quando o mancebo, dobado no ar, exhalava a vida antes de tocar o chão, um gemido agudo, composto de soluços e choro, caiu sobre o cadaver com uma lagrima de fogo. Uma dama desmaiada nos braços de outras senhoras soltára aquelle grito estridente, derradeiro ai do coração ao rebentar no peito.