El-rei D. José, com as mãos no rosto, parecia petrificado.

A côrte d'esta vez acompanhava-o sinceramente na sua dôr.

Mas o drama ainda não tinha concluido. Quem sabe?! O terror e a piedade iam cortar de novas magoas o peito a todos.

O marquez de Marialva assistira a tudo do seu logar. Revendo-se na gentileza do filho, seus olhos seguiam-lhe os movimentos brilhando radiosos a cada sorte feliz. Logo que entrou o touro preto carregou-se de uma nuvem o semblante do ancião. Quando o conde dos Arcos sahiu a farpeal-o, as feições do pae contrairam-se e a sua vista não se despregou mais da arriscada lucta.{180}

De repente o velho soltou um grito soffocado e cobriu os olhos, apertando depois as mãos na cabeça. Os seus receios haviam-se realisado. Cavallo e cavalleiro rolavam na arena, e a esperança pendia de um fio tenue! Cortou-lh'o rapidamente a morte, e o marquez, perdido o filho, luz da sua alma e ufania de suas cãs, não proferiu uma palavra, não derramou uma lagrima; mas os joelhos fugiam-lhe tremulos, e a elevada estatura inclinou-se vergando ao peso da magua excruciante.

Volveu, porém, em si decorridos momentos. A livida pallidez do rosto tingiu-se de vermelhidão febril subitamente. Os cabellos desgrenhados e hirtos revolveram-se-lhe na fronte inundada de suor frio como as sedas da juba de um leão irritado. Nos olhos amortecidos faiscou instantaneo, mas terrivel, o sombrio clarão de uma colera, em que todas as ancias insofridas da vingança se accumulavam.

Em um impeto a presença reassumiu as proporções magestosas e erectas como se lhe corresse nas veias o sangue do mancebo que perdera. Levando por acto instinctivo a mão ao lado, para arrancar da espada, meneou tristemente a cabeça. A sua boa espada, cingira-a elle proprio ao filho n'este dia que se convertera para a sua casa em dia de eterno luto!

Sem querer ouvir nada, desceu os degraus{181} amphiteatro, seguro e resoluto como se as neves de setenta annos lhe não branqueassem a cabeça.

—Sua magestade ordena ao marquez de Marialva, que aguarde as suas ordens! disse um camarista detendo-o pelo braço.

O velho fidalgo estremeceu como se acordasse sobresaltado, e cravou no interlocutor os olhos desvairados, em que reluzia o fulgor concentrado d'um pensamento immutavel. Desviando depois a mão, que o suspendia, baixou mais dois degraus.