—Sua magestade entende que este dia foi já bastante desgraçado e não quer perder n'elle dois vassallos... O marquez desobedece ás ordens de el-rei?!...

—El-rei manda nos vivos e eu vou morrer! atalhou o ancião em voz aspera, mas sumida. Aquelle é o corpo de meu filho! e apontava para o cadaver. «Está ali! Sua magestade póde tudo menos desarmar o braço do pae, menos deshonrar os cabellos brancos do criado que o serve ha tantos annos. Deixe-me passar, e diga isto.»

D. José vira o marquez levantar-se e percebera a sua resolução. Amava no estribeiro-mór as virtudes e a lealdade nunca desmentidas. Sabia que da sua bocca não ouvira senão a verdade, e a idéa de o perder assim era-lhe insupportavel. Apenas lhe constou que elle não accedia á sua vontade, fez-se branco, cerrou os dentes convulso, e, debruçado{182} para fóra da tribuna, aguardou em ancioso silencio o desfecho da catastrophe.

A esse tempo já o marquez pisava a praça, firme e intrepido como os antigos romanos diante da morte. Dentro do peito o seu coração chorava, mas os olhos aridos queimavam as lagrimas quando subiam a rebentar por elles. Primeiro do que tudo queria a vingança.

Por impulso instantaneo, todo o ajuntamento se poz de pé. Os semblantes consternados e os olhos arrazados de agua exprimiam aquella dolorosa contensão do espirito, em que um sentido parece concentrar todos.

Deixae-o ir ao velho fidalgo! A magoa, que o traspassa, não tem egual. O fogo, que lhe presta vida e forças, é a desesperação. Deixae-o ir, e de joelhos! Saudae a magestade do infortunio!

O pae angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pousou-lhe um osculo na fronte. Desabrochou-lhe depois o talim e cingiu-o, levantou-lhe do chão a espada e correu-lhe a vista pelo fio e pela ponta de dois gumes. Passou depois a capa no braço e cobriu-se. Decorridos instantes estava no meio da praça e devorava o touro com a vista chammejante, provocando-o para o combate.

Cortado de commoções tão crueis, não lhe tremia o braço, e os pés arraigavam-se na arena como se um{183} poder occulto e superior lh'os tivesse ligado repentinamente á terra.

Fez-se no circo um silencio gelido, tremendo e tão profundo, que poderiam ouvir-se até as pulsações do coração do marquez se n'aquella alma de bronze o coração valesse mais do que a vontade.

O touro arremette contra elle... Uma e muitas vezes o investe cego e irado, mas a destreza do marquez esquiva sempre a pancada.