Sebastião José de Carvalho voltava de proposito as costas á praça fallando com o monarcha. Punia assim a barbaridade do circo.

—Temos guerra com a Hespanha, senhor. É inevitavel. Vossa magestade não póde consentir que os touros lhe matem o tempo e os vassallos. Se continuassemos n'este caminho... cedo iria Portugal á vela.

—Foi a ultima corrida, marquez. A morte do conde dos Arcos acabou os touros reaes emquanto eu reinar.

—Assim o espero da sabedoria de vossa magestade.{185} Não ha tanta gente nos seus reinos, que possa dar-se um homem por um touro. El-rei consente que vá em seu nome consolar o marquez de Marialva?

—Vá! É pae. Sabe o que ha de dizer-lhe...

—O mesmo que elle me diria a mim, se Henrique estivesse como está o conde.

El-rei sahiu da tribuna, e o marquez de Pombal, entrando na praça em toda a magestade de sua elevada estatura, levantou nos braços o velho fidalgo, dizendo-lhe com voz meiga e triste:

—Senhor marquez! Os portuguezes como vossa excellencia são para darem exemplos de grandeza d'alma e não para os receberem. Tinha um filho e Deus levou-lh'o. Altos juizos seus! A Hespanha declara-nos a guerra, e el-rei, meu amo e meu senhor, precisa do conselho e da espada de vossa excellencia.

E travando-lhe da mão, levou-o quasi nos braços até o metterem na carruagem.

D. José I cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado nunca mais se picaram touros reaes em Salvaterra.{186}