—Não; uma visinha.

A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel, seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que perdera a mãe, alguns mezes antes.

A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, « profundos como o ceu,» exclamava Estevão.

Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.

A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.

O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.

Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma Pratica Forense. Demos-lhe razão ao despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que valia as flores e os passaros.

Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha saíra um roupão,—elle não viu mais que um roupão,—e seguira pela rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que o fosse.

A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a natureza.

Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor,—e ser visto, digamos a verdade toda,—aquella desconhecida visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e curiosidade.