O roupão ia andando.


[III]

Ao pé da cerca.

A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,—de musselina branca,—finamente bordado, não deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que rematavam em folhos de renda.

Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.

Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave, como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della, mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock, a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais aereo, transparente, ideial.

Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas, não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.

A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,—seria abusar dos direitos do estylo,—mas uma hora, uma hora lhe parecia, com certeza.

A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado, mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso, tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro e umas aspirações á vida elegante,—nelle a inveja era quasi um sentimento desculpavel.