A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão, vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que, descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena ou de tristeza.
Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia mulher.
Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.
A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:
—Guiomar!
A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo instante murmurasse em tom de súpplica:
—Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se de todo.
Guiomar,—sabemos agora que era este o seu nome,—olhou séria e quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais. Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais piedade que affecto, murmurou:
—Está perdoado.
Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,—apertou não é bem dito,—em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que podia e devia naquella situação.