—Tudo o que?
—Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recomeça agora,—agora, que ella já não é a simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do meu coração.
A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia, não era razão para suppor uma paixão anterior.
—Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento. Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu coração, como se tivesse a chave na minha algibeira.
A baroneza abanou a cabeça.
—Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e que relações de affecto houve no passado.
—Parece-lhe possivel?
—Naturalmente!
A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada para ella, como quem reflectia.
—Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia, e de quem Deus me fez mãe...