Paixão não era,—não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo; mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto, o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a? Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.
Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem por isso achava menos temeraria aquella confissão.
A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.
Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas, mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era pena de o não poder amar,—ou ainda melhor—era lastima de que tal coração não fora casado a outro espirito.
Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na alma as lembranças da terra.
Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu bater de manso á porta.
—Quem é? perguntou.
—Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.
A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns segundos. Guiomar assustada perguntou:
—Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?