—Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.
Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae toda absorvida em pensamentos intimos.
—Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa... Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste mundo.
—De certo, murmurou Guiomar.
Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente. Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a lerem na alma uma da outra.
Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,—embora, sem prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o cavalleiro.
O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle della, que de todo a desmascararia.
—Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...
—Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.
—Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.