A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os lados partiam votos de opposição.
Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver. No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a expressão de um genio imperioso e voluntario.
—Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.
—Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.
—De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava. A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais, é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.
Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na fervura triumphante dos animos.
—Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são apenas tres ou quatro mezes.
Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.
Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez que eram de amor. Talvez,—quem sabe?—amor um pouco socegado, não louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge, um meio termo entre um e outro,—como podia havel-o no coração de um ambicioso.
—O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo passa depressa...