—Oh! de certo!

—O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...

—São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto da visita.

O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era—, expressões delle,—uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, teria elle a vida sã e salva.

Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz, comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.

O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e applaudindo-os discretamente,—serio, quando elles o eram ou pareciam ser,—chocarreiro quando vinham com ar de graça,—respondendo emfim a todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e obrigação:—toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida publica.

De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio. Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.

Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada; declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo, que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos, e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza devia ficar.

Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto em differente terreno.

—Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.