A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou, veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito no capitulo anterior.

Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.

Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer afflicção antecipada.

—Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.

—A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum sorriso contrafeito.

Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves. Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da situação.

—Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava na mesma sala, leia isto.

A ingleza obedeceu.

—Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos. A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes? continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de crimes, e que ha mortos...

—Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem parece estar autorisado?