A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a levantar os olhos.

—Deves saber, continuou a baroneza,—que eu estimaria ver que este casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas presentes... Que diz o teu coração?

E como Guiomar não respondesse logo:

—Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.

A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto, se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu a carta e entregou-a á madrinha.

—Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere; mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle que te falar ao coração.

Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:

—Que tens?

A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios; travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.

—Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer, não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...