Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.

O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as folhas do arvoredo.

A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar matinal.

De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as que eram della,—della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de grandeza humana.

O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas, em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella foi encontrar o seus;—e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores alheias.

Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus planos.

Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,—talvez ainda mais, porque era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da ingleza.

O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.

Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle. Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos—voluptuosidade da dor, em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.

Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada; detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada, escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um remorso.