Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois, e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do interior, ignora-se.
O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.
--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que, assentado, a escutava.
—Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e outra cousa.
—A ambição não é defeito.
—Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em você, que ha de ser para mim uma força nova.
—Oh! sim! exclamou Guiomar.
E com um modo gracioso continuou:
—Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?
—O lustre do meu nome, respondeu elle.