—Vim para isto mesmo.

Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e elle respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra prompta. Já viste que não era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação; no seminario todos me queriam bem, nem podia deixar de ser assim, accrescentou. Insistia na educação, nos bons exemplos, «na doce e rara mãe» que o ceu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.

Todos ficaram gostando delle. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. José Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio Cosme dous capotes, e prima Justina não achou tacha que lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veiu ella confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto mettidiço e tinha uns olhos policiaes a que não escapava nada.

—São os olhos delle, expliquei.

—Nem eu digo que sejam de outro.

—São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.

—Seguramente, acudiu José Dias, entretanto, póde ser que a senhora D. Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma cousa não impede outra, e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...

—A mim parece-me um mocinho muito serio, disse minha mãe.

—Justamente! confirmou José Dias para não discordar della.

Quando eu referi a Escobar aquella opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer delle foi extraordinario. Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou tambem minha mãe, senhora grave, distincta e moça, muito moça... Que edade teria?