—Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Póde ser um bom remedio.
—É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje conversar com D. Gloria, exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous mezes, ou antes...
—Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...
—Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. Pensar em que? Você o que quer... Digo? não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa.
Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar, mas eu neguei a pés juntos que quizesse consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem reitor, nem professor, nem ninguem; era só o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.
—Não?
—Não.
—Pois resolvamos hoje mesmo.
—Não se vae a Roma brincando.
—Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso caso é a moeda. Ora, você póde muito bem gastar comsigo... Commigo, não; um par de calças, tres camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei como S. Paulo, que vivia do officio emquanto ia prégando a palavra divina. Pois eu vou, não prégal-a, mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio e do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos... Bem sei a objecção que se póde oppôr a esta ideia; dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe; mas, além do mais que não digo, basta reflectir que é muito mais solemne e bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos pés do papa o proprio objecto do favor, o levita promettido, que vae pedir para sua mãe ternissima e dulcissima a dispensa de Deus. Considere o quadro, você beijando o pé ao príncipe dos apostolos; Sua Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se, interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, a Virgem recommenda ao santissimo filho que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, e que o que você amar na terra seja egualmente amado no ceu...