«Tu serás feliz, Bentinho!»
No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata, ia pensando na felicidade e na gloria. Via o casamento e a carreira illustre, emquanto José Dias me ajudava calado e zeloso. Uma fada invisivel desceu alli, e me disse em voz egualmente macia e callida: «Tu serás feliz, Bentinho; tu vaes ser feliz.»
—E porque não seria feliz? perguntou José Dias endireitando o tronco e fitando-me.
—Você ouviu? perguntei eu erguendo-me tambem, espantado.
—Ouvi o que?
—Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?
—É boa! Você mesmo é que está dizendo...
Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada; naturalmente as fadas, expulsas dos contos e dos versos, metteram-se no coração da gente e falam de dentro para fóra. Esta, por exemplo, muita vez a ouvi clara e distincta. Ha de ser prima das feiticeiras da Escocia: «Tu serás rei, Macbeth!»—«Tu serás feliz, Bentinho!» Ao cabo, é a mesma predicção, pela mesma toada universal e eterna. Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso de José Dias:
—... Ha de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma que alli está, que não é favor de ninguem. A distincção que tirou em todas as materias é prova disso; já lhe contei que ouvi da bocca dos lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, a felicidade não é só a gloria, é tambem outra cousa... Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está ahi para um canto, é cajú chupado, não vale nada; agora são os novos, os Escobares... Não lhe nego que é moço muito distincto, e trabalhador, e marido de truz; mas, enfim, velho tambem sabe amar...
—Mas que é?