[CXIV]

Em que se explica o explicado.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (cap. CX) a um professor de musica de S. Paulo que me escrevesse a toada daquelle prégão de doces de Matacavallos. Em si, a materia é chocha, e não vale a pena de um capitulo, quanto mais dous; mas ha materias taes que trazem ensinamentos interessantes, senão agradaveis. Expliquemos o explicado.

Capitú e eu tinhamos jurado não esquecer mais aquelle prégão; foi em momento de grande ternura, e o tabellião divino sabe as cousas que se juram em taes momentos, elle que as registra nos livros eternos.

—Você jura?

—Juro, disse ella estendendo tragicamente o braço.

Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão; estava ainda no seminario. Quando fui para S. Paulo, querendo um dia relembrar a toada, vi que a ia perdendo inteiramente; consegui recordal-a e corri ao professor, que me fez o obsequio de a escrever no pedacinho de papel. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. Mas has de crer que, quando corri aos papeis velhos, naquelle noite da Gloria, tambem me não lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento, e este é que foi o meu peccado; esquecer, qualquer esquece.

Ao certo, ninguem sabe se ha de manter ou não um juramento. Cousas futuras! Portanto, a nossa constituição politica, transferindo o juramento á affirmação simples, é profundamente moral. Acabou com um peccado terrivel. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade, mas a alguem que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importara mentir, uma vez ou outra, desde que não mette a alma no purgatorio. Não confundam purgatorio com inferno, que é o eterno naufragio. Purgatorio é uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os peccados grandes e pequenos.