[XIII]
Capitú.
De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:
—Capitú!
E no quintal:
—Mamãe!
E outra vez na casa:
—Vem cá!
Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam para a chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, ás tardes, e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são pessoas, apenas interiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia alli uma porta de communicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitú e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa. Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitú adoeciam, o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo do braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso á doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua. «É surda, coitada!» exclamava Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era a therapeutica habitual do medico.
—Capitú!