—Mamãe!

—Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.

A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos fundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e entrei. Capitú estava ao pé do muro fronteiro, voltada para elle, riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao dar commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa. Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ella veiu a mim, e perguntou-me inquieta:

—Que é que você tem?

—Eu? Nada.

—Nada, não; você tem alguma cousa.

Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela bocca fora. Não podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabellos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma á outra, á moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, mas com agua do poço e sabão commum trazia-as sem macula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.

—Que é que você tem? repetiu.

—Não é nada, balbuciei finalmente.

E emendei logo: