[CXXXVII]
Segundo impulso.
Se eu não olhasse para Ezequiel, é provavel que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro impeto foi correr ao café e bebel-o. Cheguei a pegar na chicara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista delle, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vã lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomára café.
—Já, papae; vou á missa com mamãe.
—Toma outra chicara, meia chicara só.
—E papae?
—Eu mando vir mais; anda, bebe!
Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a chicara, tão tremulo que quasi a entornei, mas disposto a fazel-a cair pela guela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio... Mas não sei que senti que me fez recuar. Puz a chicara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.
—Papae papae! exclamava Ezequiel.