—Está.

—Ha muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho podido, ando com trabalhos da repartição, em casa; escrevo todos os noites que é em desespero; negocio de relatorio. Você já viu o meu gaturamo? Está alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; ande ver.

Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo ceu nem pela terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lhe agora do mal que nos esperava, mas o pae era o pae, e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os de varia especie, côr e tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canarios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava passaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no proprio quintal, armando alçapões. Tambem, se adoeciam, tratava delles como se fossem gente.


[XVI]

O administrador interino.

Padua era empregado em repartição dependente do ministerio da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade delle. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu n'um meio bilhete de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia do Padua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um cavallo do Cabo, um adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpetua de familia, mandar vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que alli está á porta dos fundos da casa, em pé, falando á filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir ás molestias grandes. Padua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxilio. Nem foi só nessa occasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdota é curta.

O administrador da repartição em que Padua trabalhava teve de ir ao Norte, em commissão. Padua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos honorarios. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem: era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se ás despezas superfluas, deu joias á mulher, nos dias de festa matava um leitão, era visto em theatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dous mezes na supposição de uma eterna interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, afflicto e desvairado, ia perder o logar, porque chegara o effectivo naquella manhã. Pediu a minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava; não podia soffrer a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com bondade, mas elle não attendia a cousa nenhuma.

—Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a familia, tornar atraz... Já disse, mato-me! Não hei de confessar á minha gente esta miseria. E os outros? Que dirão os visinhos? E os amigos? E o publico?

—Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se que sua mulher não tem outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem... Seja homem, ande.