Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova,—ou então no quintal, ao pé do poço, como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata ralhava:

—Joãosinho, você é creança?

Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a pedir a minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha mãe foi achal-o á beira do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquella de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pae de familia, imitar a mulher e a filha... Padua obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir a vontade de minha mãe.

—Vontade minha, não; é obrigação sua.

—Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.

Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido á parede, cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéo em cortejar a visinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Padua começou a interessar-se pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar e dar noticias da rua. A serenidade regressou; atraz della veiu a alegria, um domingo, na figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já elle ria, já brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.

Com o tempo veiu um phenomeno interessante. Padua começou a falar da administração interina, não sómente sem as saudades dos honorarios, nem o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração ficou sendo a hegyra, donde elle contava para deante e para traz.

—No tempo em que eu era administrador...

Ou então:

—Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, um ou dous mezes antes... Ora espere; a minha administração começou... É isto, mez e meio antes; foi mez e meio antes, não foi mais.