—Não fale em morrer, Capitú!
Capitú teve um risinho descorado e incredulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão; inclinei-me e li: mentiroso.
Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta. Não atinava com a razão do escripto, como não atinava com a do falado. Se me acudisse alli uma injuria grande ou pequena, é possivel que a escrevesse tambem, com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem nos pudesse ouvir ou ler. Quem, se eramos sós? D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa, mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno curioso, que o nome escripto por ella, não só me espiava do chão com gesto escarninho, mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia acceital-a sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a secreta esperança de vel-a atirar-se a mim lavada em lagrimas. Capitú limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:
—Padre é bom, não ha duvida; melhor que padre só conego, por causa das meias roxas. O roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor conego.
—Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.
—Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não quero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido á moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. A egreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.
—Ou Candelaria.
—Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um figurão. Muita gente ha de perguntar: «Quem é aquella moça faceira que alli está com um vestido tão bonito?»--«Aquella é D. Capitolina, uma moça que morou na rua de Matacavallos...»
—Que morou? Você vae mudar-se?
—Quem sabe onde é que ha do morar amanhã? disse ella com um tom leve de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar, mettido na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... Pater noster...