Depois da missa.
Rezei ainda, persignei-me, fechei o livro de missa e caminhei para a porta. A gente mão era muita, mas a egreja tambem não é grande, e não pude sair logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres, velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e bellos, mas eu não vi uns nem outros. Ia na direcção da porta, com a onda, ouvindo as saudações e os cochichos. No adro, onde se fez claro, parei e olhei para todos. Vi então uma moça e um homem, que saíam da egreja e pararam; e a moça olhava para mim falando ao homem, e o homem olhava para mim, ouvindo a moça. E chegaram-me estas palavras:
—Mas que queres?
—Queria saber della; papae pergunte.
Era sinhásinha Sancha, a companheira de collegio de Capitú, que queria noticias de minha mãe. O pae veiu a mim; disse-lhe que estava restabelecida. Depois saimos, mostrou-me a casa delle, e, como eu vinha na mesma direcção, viemos juntos. Gurgel era homem de quarenta annos ou pouco mais, com propensão a engrossar o ventre; era muito obsequioso; chegando á porta da casa, quiz por força que eu fosse almoçar com elle.
—Obrigado; mamãe espera-me.
—Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando, e irá mais tarde.
—Venho outro dia.
Sinhásinha Sancha, voltada para o pae, ouvia e esperava. Não era feia; só se lhe podia notar a semelhança do nariz, que tambem acabava grosso, mas ha feições que tiram a graça de uns para dal-a a outros. Vestia simples. Gurgel era viuvo e morria pela filha. Como eu recusasse o almoço, quiz que descançasse alguns minutos. Não pude recusar e subi. Quis saber a minha edade, os meus estudos, a minha fé, e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre; disse-me o numero do armazem, rua da Quitanda. Emfim, despedi-me, veiu ao patamar da escada; a filha deu-me rocommendações para Capitú e para minha mãe. Da rua olhei para cima; o pae estava á janella e fez-me um gosto largo de despedida.