Talvez fosse a mesma!
Nobrega saiu emfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mão:
—Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!
Nobrega metteu a mão no bolso do collete e pegou um nickel, entre dous que lá havia, um de tostão, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a darlh'o, mudou de ideia; não deu o nickel; disse á velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão na algibeira das calças e saccou um maço de dinheiro; procurou e achou uma nota de dous mil reis, não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a velhice.
—Tome lá, murmurou elle.
Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o maço á algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veiu entremeado de lagrimas:
—Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santissima...
E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico, uma especie de melodia do céu, um côro de anjos, e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão tremula, segurando a nota. Nobrega não esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as bençãos da mulher atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando não se sabe em quê.
Atravessou a praça, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita ou para esquerda,—em todo caso para longe,—e acabou murmurando esta phrase, que tanto podia referir-se á nota. como á mendiga, mas provavelmente era á nota:
—Talvez fosse a mesma!