—Não, ninguem; pulgas.

Perpetua tambem não entendera a escolha da egreja. Quanto á concurrencia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ella calou o resto. Era pessoa circumspecta, que não se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe impossivel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar á mulher um abraço longo e terno, abrochado por um beijo.

—Que é isso? exclamou espantada.

Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abraço á cunhada, e ia a dar-lhe um beijo tambem, se ella não recuasse a tempo e com força.

—Mas que é isso? Você tirou a sorte grande de Hespanha?

—Não, cousa melhor, gente nova.

Santos conservára alguns gestos e modos de dizer dos primeiros annos, taes que o leitor não chamará propriamente familiares; tambem não é preciso chamar-lhes nada. Perpetua, affeita a elles, acabou sorrindo e dando-lhe parabens. Já então Natividade os deixára para se ir despir. Santos, meio arrependido da expansão, fez-se serio e conversou da missa e da egreja. Concordou que esta era decrepita e mettida a um canto, mas allegou razões espirituaes. Que a oração era sempre oração, onde quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, não precisava estrictamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrificio. Talvez essas razões não fossem propriamente delle, mas ouvidas a alguem, decoradas sem esforço e repetidas com convicção. A cunhada opinou de cabeça que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram piamente que era um asno;—não disseram este nome, mas a totalidade das apreciações vinha a dar nelle, accrescentado de honesto e honestissimo.

—Era uma perola, concluiu Santos.

Foi a ultima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dalli em deante, vingou a soberania da creança que alvorecia. Não alteraram os habitos, nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como d'antes, até que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em casa. As amigas iam vel-a. Os amigos iam visital-os ou jogar cartas com o marido.

Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua escolha com tão boas razões, que acabavam trocando de parecer. Então ella ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias, emquanto elle enfiava uma beca no joven advogado, dava-lhe um logar no parlamento, outro no ministerio. tambem lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajudal-o-hia começando por uma caderneta na Caixa Economica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um annos. Alguma vez, ás noites, se estavam sós, Santos pegava de um lapis e desenhava a figura do filho, com bigodes,—ou então riscava uma menina vaporosa.