Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel, que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia. Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para dormir.
A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças, realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,—e portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por sua vez acabava em silencio e contemplação.
Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol, e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico.
—Paulo! meu querido Paulo!
Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem; foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita ternura...
Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra.
Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas. Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por darem a sensação de uma alma capaz de resistir.
Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.
Unicamente,—e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,—achou cá alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.
Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos, ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si, puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes apalpasse a differença, o quid, o algo, o indefinivel. A lamparina ia morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações, por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel. Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou aos ultimos arrancos.