—Não me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem é preciso adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam della.

Elles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento que mostravam o desgosto da rivalidade, aliás sabida delles. Tal rivalidade era tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situação lhes parecia agora mais complicada e fechada que d'antes.

Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da mãe, que buscava todas as occasiões e meios de os fazer andar juntos e familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e ficou á espera delles.

—Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para, trez: eu vou no banquinho da frente.

Entraram e partiram.

—Bem, continuou Ayres, é certo que vocês gostam della, e egualmente certo que ella ainda não escolheu entre os dous. Provavelmente, não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise porque vocês se consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. Não havendo terceiro, e não se podendo prolongar a situação, porque é que vocês não combinam alguma cousa?

—Combinar quê? perguntou Pedro sorrindo.

—Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este nó gordio. Cada um que siga a sua vocação. Você Pedro, tentará primeiro desatal-o; se elle não puder, Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe. Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os espera, com duas bellas creaturas, virá trazel-as pela mão a um e a outro, e tudo se compõe na terra como no céu.

Ayres disse mais cousas antes de se apear á porta da casa. Apeado, ainda lhes perguntou:

—Estamos de accordo?