Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pae ou da mãe, segundo fosse o sexo da creança. Sendo um par de rapazes, e não havendo a fórma masculina do nome materno, não quiz o pae que figurasse só o delle, e metteram-se a catar outros. A mãe propunha francezes ou inglezes, conforme os romances que lia. Algumas novellas russas em moda suggeriram nomes slavos. O pae acceitava uns e outros, mas consultava a terceiros, e não acertava com opinião definitiva. Geralmente, os consultados trariam outro nome, que não era acceito em casa. Tambem veiu a antiga onomastica luzitana, mas sem melhor fortuna. Um dia, estando Perpetua á missa, rezou o Credo, advertiu nas palavras: «....os santos apostolos S. Pedro e S. Paulo», e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gemeos. Os paes concordaram com ella e a pendencia acabou.
A alegria de Perpetua foi quasi tamanha como a do pae e da mãe, se não maior. Maior não foi, nem tão profunda, mas foi grande, ainda que rapida. O achado dos nomes valia quasi que pela feitura das creanças. Viuva, sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e era alguma cousa nomeal-os. Contava mais cinco ou seis annos que a irmã. Casara com um tenente de artilharia que morreu capitão na guerra do Paraguay. Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrario de Natividade que, sem ser magra, não tinha as mesmas carnes, e era alta e recta. Ambas vendiam saúde.
—Pedro e Paulo, disse Perpetua á irmã e ao cunhado, quando rezei estes dous nomes senti uma cousa no coração...
—Você será madrinha de um, disse a irmã.
Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de côr, passaram a receber medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S. Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal semelhança que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A mãe é que não precisou de grandes signaes externos para saber quem eram aquelles dous pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem entre si, não deixavam de querer mal uma á outra, pelo motivo da semelhança dos «seus filhos de criação». Cada uma affirmava que o seu era mais bonito. Natividade concordava com ambas.
Pedro seria medico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Tambem pensaram em dar um delles á engenharia. A marinha sorria á mãe, pela distincção particular da escola. Tinha só o inconveniente da primeira viagem remota; mas Natividade pensou em metter empenhos com o ministro. Santos falava em fazer um delles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias. Intimos da casa entravam nos calculos. Houve quem os fizesse ministros, dezembargadores, bispos, cardeaes...
—Não peço tanto, dizia o pae.
Natividade não dizia nada ao pé de extranhos, apenas sorria, como se tratasse de folguedo de São João, um lançar de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente ao numero. Não importa; lá dentro de si cobiçava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava, rezava ás noites, pedia ao céu que os fizesse grandes homens.
Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquellas ancias e conversas, perguntou a Natividade por que é que não ia consultar a cabocla do Castello. Affirmou que ella adivinhava tudo, o que era e o que viria a ser; conhecia o numero da sorte grande, não dizia qual era nem comprava bilhete para não roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece que era mandada de Deus.
A outra ama confirmou as noticias e accrescentou novas. Conhecia pessoas que tinham perdido e achado joias e escravos. A policia mesma, quando não acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castello falar á cabocla e descia sabendo; por isso é que não a botava para fóra, como os invejosos andavam a pedir. Muita gente não embarcava sem subir primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de quebranto...