[CAPITULO CXII]
O primeiro mez
Na vespera do dia em que se completou o primeiro mez da morte de Flora, Pedro teve uma ideia, que não communicou ao irmão. Não perderia nada em fazel-o, porque Paulo teve a mesma ideia, e tambem a calou. Della nasce este capitulo.
A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora, adivinhas que ambos fôram ao cemiterio; não adivinhas, nem é facil adivinhar que cada um delles levava uma grinalda. Não digo que fossem das mesmas flores, não só para respeitar a verdade, senão tambem para afastar qualquer ideia intencional de symetria na acção e no acaso. Uma era de myosotis, outra creio que de perpetuas. Qual fosse a de um, qual a do outro, não se sabe nem interessa á narração. Nenhuma tinha letreiro.
Quando Paulo chegou ao cemiterio, e viu de longe o irmão, teve a sensação de pessoa roubada. Cuidava ser unico e era ultimo. A presumpção, porém, de que Pedro não levára nada, uma folha sequer, consolou-o da antecipação da visita. Esperou alguns instantes; advertindo que podia ser visto, desviou-se do caminho, metteu-se por entre sepulturas, até ir collocar-se atraz daquella. Ahi esperou cerca de um quarto de hora. Pedro não se queria arrancar dalli; parecia falar e escutar. Emfim, despediu-se e desceu.
Paulo, vagorosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar a grinalda, viu alli outra posta de fresco, e entendendo que era do irmão, teve impeto de ir atraz delle e pedir-lhe contas da lembrança e da visita. Não lhe leves a mal o impeto; passou immediatamente. O que elle fez foi collocar a coroa que levava no lado correspondente aos pés da defunta, para não a irmanar com a outra, que estava do lado da cabeça.
Não viu, não adivinhou sequer que Pedro naturalmente pararia um instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar á moça enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmão, no mesmo logar que elle, os olhos no chão, teve tambem o seu impulso de ir buscal-o e trazel-o daquella cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os gestos de piedade, quaesquer que fossem, elle os deu primeiro á querida commum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvil-a, gemer com ella a separação eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se della mais cedo.
Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saisse atraz delle, e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo logar, e receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direcção do portão, estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os gestos delle, ver se rezava, se se benzia, para desmentil-o quando lhe ouvisse mofar das ceremonias ecclesiasticas. Logo sentiu que era um erro; não iria confessar a ninguem que o vira rezando ao pé da cova de Flora. Ao contrario, era capaz de o desmentir, —ou, quando menos, fazer um gesto de incredulidade...
Emquanto estas imaginações lhe passavam pela cabeça, desfazendo-se umas ás outras, discursando sem palavras, acceitando, repellindo, esperando, os olhos não se retiravam do irmão, nem este da sepultura. Paulo não fazia gesto, não mexia os labios, tinha os braços cruzados, o chapeo na mão. Não obstante, podia estar rezando. Tambem podia falar calado, para a sombra ou para a memoria da defunta. A verdade é que não saiu do logar. Então Pedro viu que a conversação, evocação, adoração, o que quer que fosse que atava Paulo á sepultura, vinha sendo muito mais demorado que as suas orações. Não marcára o seu tempo, mas evidentemente o de Paulo era já maior. Descontando a impaciencia, que sempre faz crescer os minutos, ainda assim parecia certo que Paulo gastava mais saudades que elle. Deste modo, ganhava na extensão da visita o que perdera na chegada ao cemiterio. Pedro, á sua vez, achou-se roubado.