[CAPITULO XXX]

A gente Baptista

A gente Baptista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da provincia do Rio. Não foi Maricá, embora alli tivesse nascido o pae dos gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli é que se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito.

Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos, advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido conservador. A ida á fazenda tivera por objecto exactamente uma conferencia politica para fins eleitoraes, mas tão esteril que elle tornou de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos no governo, não alcançára nada, nem deputação, nem presidencia. Interrompêra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo «a pedido», disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crêr outra cousa. De facto, perdera as eleições, e attribuia a esse desastre politico a demissão do cargo.

—Não sei o que é que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas mortes no Ribeirão das Moças.

O final era excessivo, porque as mortes não fôram obra delle; quando muito, elle mandou abafar o inquerito, si se póde chamar inquerito a uma simples conversação sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa, as eleições fôram incruentas.

Baptista dizia que por causa das eleições perdera a presidencia, mas corria outra versão, um negocio de aguas, concessão feita a um hespanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O pedido era verdadeiro, a imputação de socio é que era falsa. Não importa; tanto bastou para que a folha da opposição dissesse que houve naquillo um bom «arranjo de familia», accrescentando que, como era de aguas, devia ser negocio limpo. A folha da administração retorquiu que, se aguas havia, não eram bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. Não era exacto; a folha da opposição reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza fôra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, «como agora estavamos em Hespanha», o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle epitaphio:

Cuñados y juntos:
Es cierto que estan difuntos;

e emendou-o por não ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e aos seus, dizendo pela nossa lingua: