Antes que elle respondesse, entrarám na sala os dous gemeos. Flora esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres não se demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.
[CAPITULO XXXV]
Em volta da moça
Já então os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S. Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito que saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes estão no homem.
Não era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem não eram taes as duas que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se combina sem quebra de essencia de cada cousa. Lá que viessem a amar a pequena com egual força é o que se podia admittir desde já, sem ser preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; póde ser até que nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava pelas férias, como que a achava mais cheia de graça. Era então que Pedro multiplicava as suas finezas para se não deixar vencer do irmão, que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto amigo.
Note-se—e este ponto deve ser tirado á luz, —note-se que os dous gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuia em cada um delles a feição pessoal. Demais, Flora simulava ás vezes confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro:
—Dr. Paulo!
E dizia a Paulo:
—Dr. Pedro!