Tienen las sevillanas,
En la mantilla,
Um letrero que dice:
Viva Sevilla!

Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,—de um regimen que fosse,—com as suas ideias novas, os seus homens frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos quadris e cantarolando a trova andaluza:

Tienen las sevillanas
En la mantilla...


[CAPITULO XLI]

Caso do burro

Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e a sua trova.

Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada, tirou a carroça do logar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel. Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar...

—Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo.