—Toda alma livre é imperatriz.

A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposição ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo escreveu no Memorial. Com esta nota: «A meiga creatura agradeceu-me estas cinco palavras».


[CAPITULO XLIX]

Taboleta velha

Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu no Memorial as impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou, leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas, e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e entrou-lhe em casa.

—Que suba, disse o conselheiro ao criado.

Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia.

—Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta.

—Que taboleta?