—Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos.
Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.
[CAPITULO L]
O tinteiro de Evaristo
—...Este caso prova que tudo se póde amar muito bem, ainda um pedaço de madeira velha. Creiam que não era só a despeza que elle naturalmente sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto tão intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a taboleta não foi sequer arriada um dia. Custodio não teve occasião de ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede.
Era ao jantar, em Botafogo. Só quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e Ayres. Pedro fôra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista.
D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito, o tinteiro de Evaristo. A irmã sorriu para o marido, e este para a mulher, como se dissessem: «lá vem elle!» Era um tinteiro que servira ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples, feita de barro, egual aos tinteiros que a gente chã comprava nas lojas de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera em lembrança, tivera um da mesma edade, massa e feição.
—Veiu assim de mão em mão parar ás minhas. Não chega aos tinteiros do mano Agostinho nem de Natividade, que são luxuosos, mas tem grande valor para mim.
—Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico.