D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha; mas, tudo acaba, até a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos. Paulo, não sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas, eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores. A rua ajudava aquella absorpção reciproca; as pessoas que iam ou vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de partida a alguma digressão. As digressões entraram a dar as mãos ao silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta, elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia começava a espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.

Na rua Gonçalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros. Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a ultima vez que os vira ia já a alguma distancia.

—Conhecem? perguntou ás duas.

Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que o não comprára, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos, com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no rosto da moça. Aquellas encommendas tinham já um ar de bilhetes de passagem, não tardava o paquete, iam correr ás malas, aos arranjos, ás despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e áquelle outro de mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas, algumas novas, outras velhas, recordações anteriores á partida daqui para S. Paulo.

Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles. No meio daquella conversação truncada, mais entretida por elle que por ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se pensára nelle, ou, ao menos, sonhára com elle algumas noites. Ouvindo que não, daria espansão á colera, dizendo-lhe os ultimos improperios; se ella corresse, correria tambem, até pegal-a pelas fitas do chapeo ou pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ella uma valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios, porque, a despeito da melancolia da moça, os olhos que ella erguia para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez gastaram nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações, não ha memoria delle, nem necessidade. Tempo é propriamente officio de relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia.


[CAPITULO LVIII]

Matar saudades

Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro; tal qual recebia o irmão de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:

—A senhora enfeitou muito.