—Essa pergunta...

—É menos ociosa do que parece. Não basta suppor que se cre; nem basta crer á ligeira, como na existencia de uma região obscura da Asia, onde nunca se pretende pôr os pes. O Deus de que te fallo não é só essa sublima necessidade do espirito, que apenas contenta alguns philosophos; fallo-te do Deus creador e remunerador, do Deus que le no fundo de nossas consciencias, que nos deu a vida, que nos hade dar a morte, e além da morte o premio ou o castigo. Cres?

—Creio.

—Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei humana, sem o saber. Teu coração é um grande inconsciente; agita-se, murmura, rebella-se, vaga á feição de um instincto mal expresso e mal comprehendido. O mal persegue-te, tentaste, envolve-te em seus liames dourados e occultos; tu não o sentes, não o ves; tens horror de ti mesmo, quando deres com elle de rosto. Deus que te lê, sabe perfeitamente que entre teu coração e tua consciencia ha com o um veu espesso que os separa, que impede esse accôrdo gerador do delicto.

—Mas que é, padre-mestre?

Melchior inclinou-se e encarou o moço. Seus olhos, fitos nelle, eram como tum espelho polido e frio, destinado a reproduzir a impressão do que lhe ia dizer.

—Estacio,—disse Melchior pausadamente,—tu amas tua irmã.

O gesto mesclado de horror, assombro e remorso, com que Estacio ouvira aquella palavra, mostrou ao padre, não só que elle estava de posse da verdade, mas tambem que acabava de a revellar ao mancebo. O que a consciencia deste ignorava, sabia-o o coração, e só lh'o disse naquella hora solemne. A consciencia, depois de tactear nas trevas, recuou apavorada, como affastando de si o clarão subito que accendêra nella a palavra do sacerdote. Estacio não respondeu nada: não podia responder nada. Com que vocabulo e em que lingua humana esprimiria elle a commoção nova e terrivel que lhe abalára a alma toda? que fio podéra atar-lhe as ideias rôtas e dispersas? Nem falou, nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como estupido e morto, Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e compassivo. Seus olhos, que eram de aguia para os mysterios da vida, eram de pomba para os grandes infortunios. Abaixo da cabeça mascula, havia um coração feminino.

A mudez de Estacio cessou emfim; o corpo agitou-se; o labio articulou algumas phrases desconcertadas. Vago era o sentido dellas; podia concluir-se que elle não cria na revellação de Melchior, que o supposto sentimento era tão absurdo e desnatural, que só a maus instinctos devia ser attribuido. Melchior ouviu-o e sorriu com satisfação. Não era aquillo mesmo um protesto de consciencia honrada?

—Maus instinctos, não,—respondeu Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estacio; revolve-lhe os mais intimos recantos, e la acharás esse germen funesto: lança-o fóra de ti, que é o preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste nunca: a tentação usa essa tactica serpentina e dolosa; é insinuante, como a calúmnia, e pertinaz, como a suspeita. Mas eu sou a verdade, que affirma, e a caridade, que consola. Digo-te, não que peccaste, mas que ficaste á beira do peccado; e estendo-te a mão para que recues do abysmo.