—Padre-mestre! murmurou Estacio cujo coração recebia a influência da palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.

—Não fales, continuou o padre; negal-o é mentir; confessal-o é ocioso. Como nasceu em teu coração semelhante sentimento? Quiz a fortuna que entre voces dous não houvesse a imagem da infancia e a communhão dos primeiros annos; que, em plena mocidade, passassem do total desconhecimento um do outro, para a intimidade do todos os dias. Ésta foi a raiz do mal. Helena appareceu-te mulher, com todas as seduções proprias da mulher, e mais ainda com as de seu proprio espirito, por que a natureza e a educação accordaram em a fazer original e superior. Não sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem podias comprehendel-a. S. Paulo o disse: para os corações limpos, todas as cousas são limpas. Vias a affeição legitimo naquillo que era ja affeição espuria; dahi vieram os zelos, a suspicacia, um egoismo exigente, cujo resultado seria subtrahir a alma de Helena a todos as alegrias da terra, unicamente para o fim de a contemplares sosinho, como um avaro.

Ouvindo a palavra do padre, Estacio soletrava o proprio coração e lia claramente o que até então era para elle como um livro fechado. A situação tornava-se, entretanto, por demais afflictiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estacio ergueu-se; erguendo-se deu com os olhos no retrato do Conselheiro, que, na penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho, e interrogal-o. Ésta circumstância desorientou o moço.

—Não, padre-mestre! exclamou elle deixando-se cahir na cadeira.—É impossivel! isto que me está dizendo é um sonho mau, é um funesto equívoco; é impossivel; juro-lhe que é impossível. É certo que a amo... que a amava, com sentimento de irmão; mas esquecer-me, aninhar em minha alma tão odioso affecto... oh! era impossivel!

Melchior erguera-se. Apos meia duzia de passos, approximou-se de Estacio, sôbre cuja cabeça estendeu a mão direita, em quanto com a outra lhe erguia a barba, obrigando-o a olhar para elle.

—Digo-te que teus uma raiz de ma herva no coração; ésta é a cruel verdade. Ha no homem uma ligação de sentimento, ás vezes inexplicavel. Productos de climas oppostos ahi se alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?

—O resto?

—Ouve,—continuou o padre sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo para o coração virgem e casto de Helena, e o mesmo sentimento os ligou em seus fios invisiveis. Nem tu o vias, nem ella; mas eu vi, eu fui o triste expectador dessa violenta e miseravel situação. São irmãos e amam-se. A poesia tragica póde fazer do assumpto uma acção theatral; mas o que a moral e a religião reprovam não deve achar guarida na alma de um homem honesto e christão.

—Impossivel! impossivel! exclamou Estacio. Mas, dado que assim fosse, por que accumular á difficuldade presente o horror de semelhante revellação?

—Por que a revellação explica a difficuldade. Helena não sabera que ama, mas ama. Ora, um amor clandestino, de parceria com esse outro amor incestuoso, embora inconsciente, provaria da parte de Helena uma perversão, que ella não póde ter, e que, em tal edade, faria della um monstro. Sera Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza humana. Não! essa casa, onde a viste entrar, é com certeza asylo de miseria; o que ella ahi vae levar é a esmola e a compaixão.